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Mostrando postagens de maio, 2021

Os dois amigos

  Dois amigos se encontraram num bar, por acaso, e se puseram a conversar para tentar colocar em dia tudo o que havia acontecido desde de seu último encontro. Após algumas cervejas a conversa fluiu de coisas como trabalho e futebol para temas mais íntimos e particulares. O primeiro se queixava de que seu casamento não ia nada bem e que sua mulher havia mudado muito desde quando se casaram. Que não parecia mais feliz com a relação e que por isso parecia fazer de tudo para desagradá-lo, forçando brigas e discussões intermináveis cada vez mais recorrentes. Achava defeito em tudo o que ele fazia ou pensava, desdenhava suas ideias e conquistas pessoais e profissionais, sempre colocando algum porém em tudo aquilo que ele se orgulhava de ter feito. Não suportava mais aquela situação. Dizia que ela deveria agradecer de ter alguém que colocasse comida na mesa e pagasse as contas. Que outro trouxa igual a ele ela não encontraria por aí. Que ele só não estava com outra até agora porque nã...

Carla, a manca

  Carla mancava. A cada passo seu sentia que não conseguia se mover o mesmo tanto e com a mesma facilidade que os outros e isso a incomodava. Perdia muito tempo imaginando em como seria bom andar como as outras pessoas que ela julgava serem normais. Vivia a maldizer os seus pés e a pouca resistência de suas pernas. Sentia que era uma vergonha para si mesma e para todos ao seu redor. Mesmo todo mundo lhe dizendo que não se importasse com aquilo, que cada um tinha o seu ritmo, que ela não era tão diferente assim dos outros, que cada um tem as suas limitações e tantas outras palavras de consolo. Sua única satisfação era quando saía nas ruas e tentava andar normalmente e tinha a impressão de que não estavam percebendo o quanto ela mancava. Ela disfarçava bem o seu andar manco e só aqueles que a conheciam de perto tinham noção da dimensão dessa sua deficiência. Carla mancava muito, mas era por dentro.

Desgraça e autopiedade

  Os dias têm sido estranhos. Desde aquele dia está sendo difícil levar a vida e fazer de conta que nada aconteceu. Não sei dizer se as coisas voltarão a ser o que eram antes. Depois que você vivencia algo marcante não dá para simplesmente virar as costas, passar uma borracha sobre o assunto e seguir em frente como se tudo estivesse normal. Fecho os olhos e aquilo tudo me volta na mente, vívido e atual, como se eu estivesse revivendo toda aquela cena novamente. Tento me distrair com o trabalho, um pouco de música, bebida e amigos, mas é só me distrair e novamente tudo retorna. Parece uma sombra, sempre colada, insistente, sorrateira como uma cobra esperando para dar o bote. Não sei mais se tento esquecer, se me esforço ou simplesmente tento viver a minha vida e deixar que o tempo aos poucos vá tirando isso da memória, levando cada vez mais para o fundo do baú das lembranças, deixando opaco, empoeirado, até não sobrar mais que uma vaga reminiscência. Mas quanto tempo será nece...

A chuva

  A chuva fina caía lá fora. A rua tomava um brilho triste que fazia com que o rapaz ficasse num estado quase que hipnotizado observando da janela. A proximidade do Natal não facilitava muito as coisas. Uma época festiva, mas ao mesmo tempo que estimulava a reflexão. E quem reflete sempre acha mais do que boas lembranças para remoer. Os fantasmas do passado parecem adorar as noites chuvosas e principalmente a leve chuva noturna sob as luzes da cidade. Começou lembrando de velhos conhecidos e parentes que já haviam partido e aos quais ele não mais veria no Natal deste ano. Depois de frustrações antigas e recentes, todas misturadas numa massa de nostalgia e solidão, amalgamadas de maneira indissolúvel, uma lâmina fina que alfineta de leve e contundentemente o fundo do ser. Agora a chuva ficava mais grossa. A sensação de estar sendo alfinetado passa. Vem o transe, induzido pelo ruído constante da chuva, um tipo de mantra que induz a estados mentais profundos, abissais. Sentia qu...