Os
dias têm sido estranhos. Desde aquele dia está sendo difícil levar a vida e
fazer de conta que nada aconteceu. Não sei dizer se as coisas voltarão a ser o
que eram antes. Depois que você vivencia algo marcante não dá para simplesmente
virar as costas, passar uma borracha sobre o assunto e seguir em frente como se
tudo estivesse normal.
Fecho
os olhos e aquilo tudo me volta na mente, vívido e atual, como se eu estivesse
revivendo toda aquela cena novamente. Tento me distrair com o trabalho, um
pouco de música, bebida e amigos, mas é só me distrair e novamente tudo
retorna. Parece uma sombra, sempre colada, insistente, sorrateira como uma
cobra esperando para dar o bote.
Não
sei mais se tento esquecer, se me esforço ou simplesmente tento viver a minha
vida e deixar que o tempo aos poucos vá tirando isso da memória, levando cada
vez mais para o fundo do baú das lembranças, deixando opaco, empoeirado, até
não sobrar mais que uma vaga reminiscência.
Mas
quanto tempo será necessário para apagar o que aconteceu? Será que o tempo
possui mesmo essa característica mágica de remover tudo para o esquecimento,
principalmente aquilo que não queremos lembrar e que, por isso mesmo, trazemos
a todo instante para a lembrança?
Tenho
medo. Medo de isso demorar tempo demais para sair, para se ocultar, se
enfraquecer e se recolher no amontoado das memórias irrelevantes onde
gostaríamos que todas as nossas más recordações se encaminhassem. Trago algumas
antigas até hoje na mente, será essa mais uma delas? Se ficar talvez seja a
pior, a mais marcante.
Dizem
que recordar é viver. Recordar também pode ser morrer. A gente morre um pouco
mais a cada vez que rememora algo que não gostaria de ter vivenciado. Morre um
pouco quando passa pela situação e continua morrendo um pouco mais a cada vez
que se recorda. É como se a vida fosse sendo corroída, esfarelada do nosso ser
e levada pelo vento sabe-se lá para onde. E mesmo sem querer a gente refaz esse
roteiro indefinidamente, como num ato masoquista de repassar aquela dor outra e
outra vez. Querendo vencê-la pelo cansaço ou repetir até que ela enfim se
esgote e nos abandone. Entretanto ela parece se renovar a cada recordação. Se
nutre do nosso desespero em tentar fazê-la ir embora.
E
como tudo acaba virando hábito, com o tempo internalizamos de tal forma essa
luta que nós mesmos ressuscitamos a dor, mesmo sem querer ou sem nos darmos
conta dessa mania. Trazemos tudo a toda outra e outra vez, e nos compadecemos
de nós mesmos ao sentir essa dor, nos aninhamos e nos consolamos, como se
fôssemos os nossos próprios guardiões, sentindo autopiedade e nos compadecendo
de nossa desgraça.
Recriamos
nossas dores para poder sentir pena de nós mesmos. Depois nos consolamos por
achar que a vida não nos favoreceu, contamos histórias reconfortantes para nós
mesmos e tentamos dormir em paz, acariciando as feridas que acabamos de reabrir
mais uma vez.
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