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Voltando para casa

 

Só quando se anda pela rua na madrugada é que se percebe bem o quanto a nossa mente nos enche com aquilo de pior que ela consegue produzir. A cada passo ela cria monstros e perigos em cada cantinho escuro e em cada rosto estranho que nos aparece. Era isso que João Otávio ia pensando pela rua enquanto caminhava voltando da balada. Queria ter bebido um pouco mais para criar coragem de passar sozinho por aquele caminho naquele horário. Mas agora já era tarde para se arrepender.

Ele sempre passava por ali de carro, nunca havia reparado a quantidade de lâmpadas queimadas na avenida principal do bairro, quase metade do total. Um vulto se mexendo da direção do terreno baldio o deixou apreensivo, já ia se preparando para correr. De repente o vulto encontrou a luz que vinha do poste e o tranquilizou, era apenas um cachorro.

Andou mais alguns minutos, já recomposto do susto, mas ainda apreensivo. Achou que estava sendo seguido, porém evitou olhar para trás na intenção de não confirmar aquela suspeita de algo tão indesejado. Apertou o passo e tentou ser rápido sem correr. Olhou para as esquinas pensando em alguma rota de fuga ou na expectativa de encontrar alguém conhecido e parar um pouco para se recompor da sensação desconfortável. Nada.

Quanto mais ele tentava ser discreto enquanto aumentava a velocidade ao caminhar, mais tinha a impressão de que aquele vulto também se apressava para chegar mais perto dele. Um arrepio percorreu sua espinha ao pensar nisso. O coração batia cada vez mais rápido. Procurou então desviar essas ideias da mente e não levá-las em consideração, tentando se convencer de que eram apenas fantasias de sua mente amedrontada.

Enfiou as mãos no bolso, abriu um pouco os braços para dar a impressão de que seu corpo era um pouco mais volumoso do que realmente era e ergueu a cabeça para tentar demonstrar segurança, na esperança de amedrontar aquilo que o amedrontava. Pareceu dar certo por alguns segundos, mas a impressão era cada vez mais forte. Parecia que podia até ver a sombra do vulto que o acompanhava, as esquinas iam se passando e não parecia que aquela presença tomava outro rumo, sempre buscando acompanhar os seus passos.

Mais alguns quarteirões se passaram, logo estaria em casa. Ele contava cada passo, ainda sem tomar coragem de se virar para trás e tirar aquela dúvida que o corroía por dentro. E cada vez sentia aquela presença mais e mais próxima. Naquele desespero em que ia se transformando sua caminhada de volta para casa seus ouvidos pareciam captar nitidamente os passos daquele vulto indigesto, caminhando cada vez mais apressado. Depois de um certo período, a loucura dessa suposta alucinação era tanta que até mesmo o ruído de uma respiração quase ofegante a lhe perseguir.

Cerca de dez metros antes de chegar ao seu portão, quase teve um ataque do coração quando aquele vulto finalmente se manifestou: -JOÃO! – Falou de repente, já a poucos metros dele. Era seu amigo Matheus, que estava com ele na festa, mas que havia saído com uma garota e não mais tinha dado as caras onde ele estava.

- O que você está fazendo aqui? Achei que ainda estivesse na festa.

- Eu saí com aquela mina, mas quando eu voltei me disseram que você tinha acabado de sair. Eu te vi na rua, mas não tinha certeza se era você ou não que estava na minha frente, achei que não era legal chamar, resolvi tentar te alcançar para ter certeza. Só que quanto mais eu me apressava, mais você se adiantava também. Te assustei?

- Não. Só achei estranho. Mas tranquilo. Pena que agora eu já acabei de chegar em casa, se eu soubesse que você já estava vindo também eu teria esperado.

- Sem problema. – respondeu o amigo sem imaginar o susto que causara ao outro- Na próxima a gente combina melhor e volta junto.

- Tá bem. – disse João Otávio, agradecido por não haver acontecido nada de grave consigo, mas ainda com o coração levemente acelerado, voltando ao normal lentamente.

Os dois se despediram e João Otávio fechou o portão para entrar em casa. Colocou a mão no coração para ter certeza de que estava melhor antes de abrir a fechadura. Respirou fundo e girou a chave enquanto empurrava a maçaneta:

- Da próxima vez eu juro que infarto!

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