Um dia qualquer
acordei numa cama de hospital. A cabeça pesava um pouco e meus braços estavam
presos por algemas nas beiras da maca em que eu estava. Não sabia por que eu
estava ali, não sabia a quanto tempo, não me recordava nem mesmo do meu próprio
nome. Demorou um tempo até que aparecesse alguém ali. Perguntei sobre o que
estava acontecendo. Me disseram que logo eu saberia.
Toda vez que
algum médico ou enfermeira apareciam para me ver eu questionava novamente até
que alguém me dissesse algo que esclarecesse a minha situação. Me disseram que
já fazia alguns dias que eu estava ali, e agora que eu estava melhor certamente
logo seria levado para a prisão. Questionei o motivo e só o que faziam era me
olhar como se não acreditassem que realmente eu não soubesse do que se tratava.
Só dois dias
depois apareceram dois policiais, devidamente fardados e com semblante nada
amistoso. Tentei me informar sobre a causa da minha prisão, já que eu não fazia
ideia de nada que pudesse ter acontecido até o momento do meu despertar naquela
maca. “Homicídio”, disseram. Não consegui acreditar a princípio, mas nenhum
deles parecia estar brincando. Como eu poderia ter matado alguém? Aliás, quem
eu era e por que razão eu não me recordava e nem me sentia feliz ou pesaroso
por saber daquilo? Era realmente culpado ou não? Eles deixaram o quarto,
falaram com os médicos e se foram. Voltaram alguns dias depois e me levaram.
Fui colocado
sozinho em uma cela. Ninguém veio me visitar a não ser um advogado, indicado
pelo Estado. Eu não me recordava de ter parentes ou amigos, também ninguém me
procurou. Não tinha o que falar ao advogado a não ser que não me recordava de
nada, nem mesmo como eu tinha aprendido a falar o idioma e como articulava meus
argumentos com uma certa desenvoltura. Alguns dias depois ele me trouxe uma
breve biografia minha e com a qual até hoje não me identifiquei, para ser
sincero. Nem mesmo o nome com o qual dizia que eu havia sido registrado me
dizia nada: Carlos. Eu me olhava no espelho e não me sentia como alguém que um
dia tivesse sido chamado por aquele nome.
Alguns meses se
passaram e chegou o dia da audiência com o juiz. Fizeram muitas perguntas,
mostraram fotos e mais fotos, uma mulher coberta de sangue e com várias
fraturas pelo corpo. Doze facadas, eles disseram. E atribuíam a mim a autoria,
alegando crime passional. Eu não havia me sentido passional desde que havia
acordado naquele hospital. Se eu havia matado aquela mulher daquela forma, como
poderia estar com aquela disposição de espírito, sem nenhum remorso, recordação
ou qualquer sentimento a respeito? E se acaso a tivesse matado a sangue frio,
qual o motivo de ter apagado a suposta lembrança incômoda da minha mente? A dor
que eu sentia na cabeça logo ao acordar fui perceber depois que se tratava de
uma pancada na cabeça que me rendeu muitos pontos e que ninguém me explicou de
onde havia surgido. Tantas perguntas me vinham na mente que às vezes até me
perdia daquilo que sobre mim estava sendo dito ali na minha frente.
O promotor
relatava sem muito entusiasmo a minha suposta conduta criminosa, como se não
precisasse convencer o júri sobre a minha culpa. O júri apático, não esboçava a
menor demonstração de horror ao saber que uma mulher havia sido morta tão
brutalmente como se descrevia ali, como se não se importasse muito com tudo
aquilo. Só esperavam pelo momento do veredito, talvez. Meu advogado nem tinha o
que dizer, e eu nem sei se ele teria sido um bom defensor ou não caso eu lhe
tivesse dado uma história para contar. Tudo ali parecia uma cena de filme
passando a uma certa distância, como se não fosse a minha vida que estivessem
decidindo por mim.
Pouca gente
assistia. Pareciam também espectadores de uma sessão monótona de um filme de
época. Mas de alguma forma pareciam que precisavam estar ali por alguma causa.
Tudo se alinhava como num roteiro previamente orquestrado, onde nada era feito
fora da conformidade. Tudo tão bem articulado que eu me impressionava com a
forma como tudo ia se desenrolando para a minha provável condenação. Até eu
mesmo se não estivesse ali no meu lugar estaria me julgando culpado por tudo o
que se dizia a meu respeito e os atos que eu me eram imputados. Não havia
dúvidas, tudo era demonstrado de forma que não cabia muitos questionamentos. A
não ser o fato de eu não me sentir aquela pessoa tão emotiva que atacava com
uma arma tão pessoal alguém com quem havia tido um relacionamento próximo como
era ali descrito. Eu não conseguia sentir nem raiva de mim mesmo ouvindo cada
detalhe que era apontado a meu respeito. Onde estava toda aquela passionalidade
que diziam que eu tinha? Um trauma ou sequela poderia ter extirpado tudo aquilo
de mim junto com as lembranças? Tudo parecia muito estranho, desconexo, quase
que uma armação ou algo do tipo. No entanto, nem eu era capaz de dizer e nem
ninguém ali parecia estar disposto a me ajudar a esclarecer a questão.
Eu estava só.
Tão indefeso que nem sequer tinha motivação para questionar o que se
desenrolava na minha frente, pois não tinha sequer a força necessária para contrapor
a versão dada a meu respeito, já que o fato de não lembrar também não fazia de
mim um inocente. A dúvida tirava de mim a força de vontade para tentar evitar o
encaminhamento tão evidente que pouco a pouco ia se desenrolando. A dúvida não
me deixava aceitar a culpa, porém não me possibilitava lutar pela minha
absolvição.
Ao final de
algumas horas, tudo foi dito por todas as partes e não havia mais o que ser
falado. O júri se recolheu, e depois de um breve período de tempo retornaram
com seu entendimento: culpado. O juiz proferiu a sentença, enfatizando que em
face de tudo o que se havia ali mostrado não havia outra alternativa, eu estava
condenado a pena de morte, a qual deveria ser cumprida dali a uma semana.
Ninguém presente
comemorou e nem demonstrou pesar, apenas foram saindo aos poucos, como se
carregassem consigo uma sensação de dever cumprido. Só os policiais pareciam
ter no rosto uma olhar malicioso, e eu não conseguia decifrar se era um
sentimento de bem estar por ver um criminoso sendo punido ou simplesmente uma
satisfação por presenciar o mal alheio. Não me cabia julgar e nem me achar
perseguido de alguma forma, uma vez que não havia elementos para dizer se o que
se passava naquele tribunal era de fato um julgamento ou se se tratava de um
plano bem arquitetado para me tirar de circulação sabe-se lá de onde e por quê.
Não me permiti pensar daquela forma, não sei se já havia me permitido pensar
assim antes, já que ainda não conseguia me lembrar do que e de como eu era
antes.
Uma semana se
passou, nem rápido e nem devagar. Mas passou. O dia marcado chegou, não sei
qual era, também não fazia diferença saber. Era um dia como qualquer outro que
eu me lembrava de ter vivido. E para quem não vai mais ter nenhum não faz
sentido marcar a passagem do tempo.
Fui levado até um
lugar que parecia novamente um hospital. Algumas pessoas olhavam pela janela do
lado de fora, talvez para ter certeza de que realmente eu teria o fim previsto.
Fui amarrado numa maca e um médico se aproximou com algumas seringas e ampolas.
Preencheu cada uma e se aproximou de mim, passou um algodão embebido em algo
para desinfetar e iniciar a aplicação.
Começo a sentir
aquela substância percorrendo minhas veias, sinto um torpor tomando conta do
corpo, deixando-o leve. A cada aplicação vou sentindo menos contato com o mundo
e percebendo menos o que se passa ao meu redor, só percebo algumas sensações
internas. Percebo que meu corpo vai se apagando devagar, e as extremidades
parecem que vão se diluindo no ar, desaparecendo e evaporando. Só um restinho
de consciência permanece para se dar conta de tudo o que se passa, cadastrando
cada detalhe sabe-se lá por qual motivo. Sinto um último sopro quente de ar
entrando pelas narinas, depois nem isso mais. Tudo vai se apagando, inclusive a
mente. Nenhuma ideia, nenhuma articulação mental, só nada. E mais nada. Nada...
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