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A chuva

 A chuva fina caía lá fora. A rua tomava um brilho triste que fazia com que o rapaz ficasse num estado quase que hipnotizado observando da janela. A proximidade do Natal não facilitava muito as coisas. Uma época festiva, mas ao mesmo tempo que estimulava a reflexão. E quem reflete sempre acha mais do que boas lembranças para remoer. Os fantasmas do passado parecem adorar as noites chuvosas e principalmente a leve chuva noturna sob as luzes da cidade.

Começou lembrando de velhos conhecidos e parentes que já haviam partido e aos quais ele não mais veria no Natal deste ano. Depois de frustrações antigas e recentes, todas misturadas numa massa de nostalgia e solidão, amalgamadas de maneira indissolúvel, uma lâmina fina que alfineta de leve e contundentemente o fundo do ser.

Agora a chuva ficava mais grossa. A sensação de estar sendo alfinetado passa. Vem o transe, induzido pelo ruído constante da chuva, um tipo de mantra que induz a estados mentais profundos, abissais.

Sentia que a chuva o deixava mais pesado, como se a gravidade aumentasse sua força e o estivesse atraindo pra baixo e exercendo sobre ele maior pressão. Parecia que sua alma estava sendo atraída para o chão. Seu corpo parecia haver se tornado um invólucro onde a alma dentro se liquefazia e escorria rumo ao chão. Precisava agir logo.

Não pensou duas vezes: apanhou suas chaves, abriu a porta rapidamente antes que algum bloqueio o persuadisse a desistir e seguiu rumo à saída. Antes que desse conta de si já estava debaixo da chuva, passeando pela rua, brincando com as poças e dançando com os pingos a cair incessantemente. Nesse momento uma grande alquimia se processava. E a mesma chuva que com seu ruído dissolvia a alma agora a refazia e a tornava alva e pura, leve como as gotas que o vento lança na direção que quer.

Dez minutos depois já havia se reconciliado com a chuva. Depois de vinte minutos estava totalmente renovado, já podia retornar para a casa. Retirou os sapatos para sentir o chão sob seus pés e caminhou de volta rumo ao portão. Em casa trocou de roupa e foi dormir ouvindo a chuva a embalar o seu sono. E a chuva já não era mais a mesma. Era agora a chuva da redenção e do aconchego. Aquela que traz bons sonhos e prepara o espírito para os novos dias e o refrigera da mesma forma como faz com as plantas, realçando a vida que nelas habita.

Comentários

  1. Meu texto preferido ❤

    Se algum dia publicar um livro nesse estilo, com certeza comprarei! 😊

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    1. Quem sabe um dia esses pensamentos viram um livro. Caso aconteça eu faço questão de reservar um exemplar para vc. Obrigado pelo carinho!

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  2. Amo sair na chuva, nós traz nossa criança interior, relaxa e renova as energias. Seu texto é maravilhoso meu amigo.

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    1. Vdd. A chuva tem um efeito regenerativo muito potente. Obrigado pelas palavras sempre gentis.

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