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Aqueles olhos

 

Eu vinha andando pela rua quando vi aqueles olhos. Que olhos! Toda a elaboração mental que eu vinha fazendo em relação a algum tema que na hora me chamava a atenção se evaporou no ar. Até hoje não me lembro mais ao certo do que se tratava. Mas me recordo muito bem daqueles olhos. Tão escuros quanto a noite, penetrantes como um punhal afiado. Senti que penetrou em mim, como uma lâmina gélida que só de lembrar já arrefece todo o corpo.

Veio andando pela calçada, distraída talvez, e num relance seus olhos encontraram os meus. Sustentou o olhar por alguns segundos, eu acho. Não sei dizer com certeza. Um breve relance da eternidade perpassou meus olhos, foi o suficiente. Vi ali tudo aquilo que eu deveria ver e foi o suficiente para que eu quisesse ficar ali mirando aquela imagem por toda a eternidade, tal qual Narciso observando sua face no espelho d´água até sentir desfalecer a última gota de sua energia vital.

Passou, olhou e se foi. Eu não quis me virar para olhar novamente. Não sei se virou depois de ter passado por mim. Tomara que não tenha virado. Se virou pode ter achado que não me interessei o suficiente. E eu me interessei. Mais do que deveria, mais do que julguei que pudesse me interessar em dois olhos estranhos, totalmente inéditos e sem nenhum contexto para que eu os fixasse.

Sei que dificilmente os verei de novo. Sei que esse evento faz parte daqueles que costumam nunca mais se repetir e que com o tempo vão se perdendo devagar no horizonte da mente. Mas por enquanto ainda está bastante vivo na memória e vai permanecer assim por um bom tempo. Parece aquela coceirinha ao mesmo tempo incômoda e gostosa de se coçar. Algo com que se ocupar para sentir que a vida tem coisas boas para nos oferecer e que vale a pena se deixar levar pelo ritmo que ela vai ditando, como um barco à deriva que se deixa direcionar pela correnteza.

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