Os
pneus da bicicleta rodavam como se já tivessem decorado o caminho. E não era para
menos. Já fazia mais de dez anos que Luiz Paulo passava por ali para ir e
voltar do trabalho. Nem pelas ruas paralelas ele nunca tivera coragem de
desviar o seu curso. Era um homem tipicamente de rotina.
A
rotina trazia uma sensação de segurança, coisa que ele não valorizava tanto
assim, afinal, mas também não conseguia se desfazer de toda a sua forma de se
organizar no mundo, daquele tipo de transe que o envolvia e não o deixava agir
de forma diferente.
Várias
vezes havia ensaiado trocar de rua, matar um dia de trabalho e rodar sem rumo
pela cidade, ou sair dela para os bairros mais afastados simplesmente para se
sentir menos condicionado àquela jaula que tinha se tornado a sua rota diária.
Em vão. Quando ia chegando perto da hora de concretizar este intento, começava
a imaginar o quanto isso era absurdo e pouco racional. E quanto mais o tempo
passava, mais julgava que não tinha mais idade para essas aventuras
inconsequentes típicas da juventude. Havia se tornado velho cedo demais.
A
única coisa que o fazia desviar de curso eram suas esporádicas passagens na
bicicletaria para realizar algum reparo, mas isso era exceção. A regra era sua
maquinal ida e vinda sempre nos mesmos horários, nos mesmos dias da semana, ano
após ano. Quanto mais o tempo passava mais aumentava a sua insatisfação, assim
como sua resistência à mudança de rotina. Ia se tornando mais calado e
cabisbaixo.
Uma
das poucas coisas que lhe davam alegria, a moça que sempre estava no portão
quando ele passava e que por ele parecia nutrir alguma simpatia há tempos não
aparecia mais naquele portão. Talvez tivesse desistido de esperar por algum
tipo de iniciativa de sua parte. Talvez tivesse se mudado. Talvez se casado com
outra pessoa com mais atitude que ele. Talvez...
Essa
palavra sempre foi sua companhia e seu algoz, juntamente com sua companhia
inseparável, o “se...”. Luiz Paulo nunca se desafiou realmente. Nunca sofreu
demais, entretanto também nunca passou por um grande rompante de alegria.
Vivera uma vida morna, morna de provocar náuseas. Morna de dormir e não desejar
mais acordar. Morna de morte recente e ainda não muito divulgada.
Sempre
quis conhecer a montanha que era ponto turístico de sua cidade, todavia não
tinha companhia para com ele ir. Sozinho perdia a motivação antes de
concretizar qualquer tipo de planejamento consistente para realizar seu
intento. Olhava as fotos dos amigos. Ouvia as histórias. Jurava para si mesmo que
um dia iria lá para passar o dia. Seria uma data especial. A primeira vez que
prometera isso a si mesmo já fazia uns quinze anos, antes mesmo de começar a
trabalhar. Ainda era bem moço, já era bem velho.
Não
bebia. Apesar de todo o peso que essa frustração toda lhe causava, suportava a
tudo sem nenhum tipo de subterfúgio ou anestésico. Tinha um certo orgulho
disso. Uma das poucas coisas das quais se orgulhava na vida. E nem sabia ao
certo o porquê disso se orgulhar. Com orgulho ou sem orgulho sua situação
permanecia a mesma.
Sonhava
com algum tipo de redenção e um dia ela acabou vindo. Um carro desgovernado
atravessou reto numa curva perto de seu trabalho, justo na hora em que se ele para
lá se dirigia. Por sorte ou por falta dela, não é fácil dizer com certeza, Luiz
Paulo foi atingido junto com mais alguns ciclistas que por ali passavam e não
resistiu. Morreu ali mesmo na calçada esmagado pelo veículo.
Deram,
ali sob o ar fresco da manhã, o último suspiro tantos sonhos que nunca chegaram
a se realizar. Sonhos que talvez já estivessem mortos há tempos. Talvez
estivessem agonizantes, doentes, cancerígenos e contagiosos, extraindo de seu
hospedeiro uma energia que não lhes tornavam vivos nem deixavam seu dono viver.
Tragédia ou redenção, não há como saber. E nem há mais que se pensar e
compreender o que foi. Não há mais necessidade disso.
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