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Telefonema

 

Nem bem são oito horas da manhã e o telefone começa a tocar. Atendo e ninguém responde. Mais umas quatro vezes isso acontece sem nenhum retorno do outro lado, somente o silêncio seguido de um sinal de que desligaram. Assim segue o dia todo, telefonemas de lugares do país inteiro. A maioria eu nunca estive e nem sei bem localizar no mapa, mas eles existem. Não só existem como alguém de lá encontrou o meu número e resolveu me incomodar.

Os dias passam e, vez ou outra, alguém aparece do outro lado para dar alguma satisfação. Alguém de um banco desconhecido oferecendo linha de crédito ou empréstimo, dizendo que meu nome faz parte de um cadastro que eu não me lembro de ter preenchido. No entanto ele está lá. Não só o nome como outros dados que sinceramente eu não gostaria de ver assim expostos por um desconhecido que eu nem sei ao certo onde mora e para quem trabalha. Alguém que me lembra de dados que nem ao certo eu mesmo posso afirmar se são corretos. Começo uma batalha que dura alguns minutos para convencer essa insistente pessoa de que eu não quero crédito nenhum e nem mudar de agência bancária. Se eu pudesse nem na minha atual eu estaria. Mas, por fim, ela desiste, me deseja um bom dia e eu ganho mais algumas semanas de sossego. Pelo menos com essa pessoa.

Porém, ela não é a única. Vem um sobrinho que eu não tenho, ou não sabia que existia, chorando e dizendo que foi sequestrado, ou alguém solicitando confirmação de dados pessoais sigilosos para uma suposta atualização de cadastro em algum lugar qualquer. Recebo telefonema até mesmo da minha própria operadora de telefone, que me oferece planos vantajosos e sempre um pouco mais caros do que o que ela própria já me convenceu a aderir algum tempo atrás. Desta vez não consinto, fico mais alguns minutos me justificando e consigo também com ela mais algumas semanas de sossego. E assim vou levando esse revezamento e tentando me convencer de que eles vão se cansar de mim antes que eu ceda para tentar fazer cessar essa perseguição constante, embora eu saiba que isso provavelmente não irá acontecer.

Quando atendo e desligam na minha cara, me irrito. Mas quando respondo e ouço do outro lado um ruído de fundo e alguém logo pergunta se sou o Sr. José já sinto uma leve arritmia, tentando adivinhar qual será o tema da vez e quanto tempo eu vou precisar gastar para convencer aquela pessoa de que eu não quero nada do que ela tem para me oferecer. Queria que me oferecessem sossego, no entanto esse item parece não ser vendido por telefone. Me resigno a aprimorar as minhas estratégias de fuga e dissuasão.

Interrompendo pensamentos ou conversas, aquele incômodo da vibração no bolso e a música que eu mesmo escolhi e agora me parece cada vez mais irritante sempre retorna. Sem jeito ou sem paciência, coloco a mão no bolso, peço licença se há mais alguém ou simplesmente respiro fundo caso esteja sozinho e vou ver o número na tela. Quem será desta vez?

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