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Julgamento

  Um dia qualquer acordei numa cama de hospital. A cabeça pesava um pouco e meus braços estavam presos por algemas nas beiras da maca em que eu estava. Não sabia por que eu estava ali, não sabia a quanto tempo, não me recordava nem mesmo do meu próprio nome. Demorou um tempo até que aparecesse alguém ali. Perguntei sobre o que estava acontecendo. Me disseram que logo eu saberia. Toda vez que algum médico ou enfermeira apareciam para me ver eu questionava novamente até que alguém me dissesse algo que esclarecesse a minha situação. Me disseram que já fazia alguns dias que eu estava ali, e agora que eu estava melhor certamente logo seria levado para a prisão. Questionei o motivo e só o que faziam era me olhar como se não acreditassem que realmente eu não soubesse do que se tratava. Só dois dias depois apareceram dois policiais, devidamente fardados e com semblante nada amistoso. Tentei me informar sobre a causa da minha prisão, já que eu não fazia ideia de nada que pudesse ter aco...
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O Livro de Perguntas

  O mundo é cheio de coisas intrigantes para se ver. Muitas delas não parecem fazer muito sentido. Outro dia na televisão disseram que é importante caminhar, andar de bicicleta e fazer outras atividades físicas para poder viver mais. Isso me fez pensar a respeito das tartarugas e dos coelhos. Os coelhos se movimentam muito, mas não vivem por muito tempo. Já as tartarugas só se movimentam o necessário. O mínimo possível. No entanto vivem centenas de anos, bem mais até do que os seres humanos. Se para um ser humano a atividade física prolonga a vida, por que com o coelho não acontece o mesmo? E por que a tartaruga vive tanto se exercitando tão pouco? Será que cada animal possui algo que seja certo e errado especificamente para a sua espécie? Por que a regra não é a mesma para todos? Às vezes eu me deito no tapete da sala e fico olhando para o teto me fazendo perguntas como essas. É interessante perguntar coisas para as quais parece que ainda não existem respostas. A gente se se...

Telefonema

  Nem bem são oito horas da manhã e o telefone começa a tocar. Atendo e ninguém responde. Mais umas quatro vezes isso acontece sem nenhum retorno do outro lado, somente o silêncio seguido de um sinal de que desligaram. Assim segue o dia todo, telefonemas de lugares do país inteiro. A maioria eu nunca estive e nem sei bem localizar no mapa, mas eles existem. Não só existem como alguém de lá encontrou o meu número e resolveu me incomodar. Os dias passam e, vez ou outra, alguém aparece do outro lado para dar alguma satisfação. Alguém de um banco desconhecido oferecendo linha de crédito ou empréstimo, dizendo que meu nome faz parte de um cadastro que eu não me lembro de ter preenchido. No entanto ele está lá. Não só o nome como outros dados que sinceramente eu não gostaria de ver assim expostos por um desconhecido que eu nem sei ao certo onde mora e para quem trabalha. Alguém que me lembra de dados que nem ao certo eu mesmo posso afirmar se são corretos. Começo uma batalha que dura a...

Voltando para casa

  Só quando se anda pela rua na madrugada é que se percebe bem o quanto a nossa mente nos enche com aquilo de pior que ela consegue produzir. A cada passo ela cria monstros e perigos em cada cantinho escuro e em cada rosto estranho que nos aparece. Era isso que João Otávio ia pensando pela rua enquanto caminhava voltando da balada. Queria ter bebido um pouco mais para criar coragem de passar sozinho por aquele caminho naquele horário. Mas agora já era tarde para se arrepender. Ele sempre passava por ali de carro, nunca havia reparado a quantidade de lâmpadas queimadas na avenida principal do bairro, quase metade do total. Um vulto se mexendo da direção do terreno baldio o deixou apreensivo, já ia se preparando para correr. De repente o vulto encontrou a luz que vinha do poste e o tranquilizou, era apenas um cachorro. Andou mais alguns minutos, já recomposto do susto, mas ainda apreensivo. Achou que estava sendo seguido, porém evitou olhar para trás na intenção de não confirmar ...

Sonhos interrompidos

Os pneus da bicicleta rodavam como se já tivessem decorado o caminho. E não era para menos. Já fazia mais de dez anos que Luiz Paulo passava por ali para ir e voltar do trabalho. Nem pelas ruas paralelas ele nunca tivera coragem de desviar o seu curso. Era um homem tipicamente de rotina. A rotina trazia uma sensação de segurança, coisa que ele não valorizava tanto assim, afinal, mas também não conseguia se desfazer de toda a sua forma de se organizar no mundo, daquele tipo de transe que o envolvia e não o deixava agir de forma diferente. Várias vezes havia ensaiado trocar de rua, matar um dia de trabalho e rodar sem rumo pela cidade, ou sair dela para os bairros mais afastados simplesmente para se sentir menos condicionado àquela jaula que tinha se tornado a sua rota diária. Em vão. Quando ia chegando perto da hora de concretizar este intento, começava a imaginar o quanto isso era absurdo e pouco racional. E quanto mais o tempo passava, mais julgava que não tinha mais idade para es...

Aqueles olhos

  Eu vinha andando pela rua quando vi aqueles olhos. Que olhos! Toda a elaboração mental que eu vinha fazendo em relação a algum tema que na hora me chamava a atenção se evaporou no ar. Até hoje não me lembro mais ao certo do que se tratava. Mas me recordo muito bem daqueles olhos. Tão escuros quanto a noite, penetrantes como um punhal afiado. Senti que penetrou em mim, como uma lâmina gélida que só de lembrar já arrefece todo o corpo. Veio andando pela calçada, distraída talvez, e num relance seus olhos encontraram os meus. Sustentou o olhar por alguns segundos, eu acho. Não sei dizer com certeza. Um breve relance da eternidade perpassou meus olhos, foi o suficiente. Vi ali tudo aquilo que eu deveria ver e foi o suficiente para que eu quisesse ficar ali mirando aquela imagem por toda a eternidade, tal qual Narciso observando sua face no espelho d´água até sentir desfalecer a última gota de sua energia vital. Passou, olhou e se foi. Eu não quis me virar para olhar novamente. Nã...

Os dois amigos

  Dois amigos se encontraram num bar, por acaso, e se puseram a conversar para tentar colocar em dia tudo o que havia acontecido desde de seu último encontro. Após algumas cervejas a conversa fluiu de coisas como trabalho e futebol para temas mais íntimos e particulares. O primeiro se queixava de que seu casamento não ia nada bem e que sua mulher havia mudado muito desde quando se casaram. Que não parecia mais feliz com a relação e que por isso parecia fazer de tudo para desagradá-lo, forçando brigas e discussões intermináveis cada vez mais recorrentes. Achava defeito em tudo o que ele fazia ou pensava, desdenhava suas ideias e conquistas pessoais e profissionais, sempre colocando algum porém em tudo aquilo que ele se orgulhava de ter feito. Não suportava mais aquela situação. Dizia que ela deveria agradecer de ter alguém que colocasse comida na mesa e pagasse as contas. Que outro trouxa igual a ele ela não encontraria por aí. Que ele só não estava com outra até agora porque nã...